“Gosto dos homens igual eu gosto dos meus sapatos, calados, bonitos e altos”.
A Nanda Tsunami conseguiu dizer muita coisa com uma música de dois minutos e vinte segundos. Eu me sinto muito orgulhosa de poder viver e ser jovem numa época em que as mulheres estão dominando a cena do rap, e o mais engraçado de tudo é: os homens estão se incomodando por causa disso.
Desde novinha eu sempre ouvi músicas onde os homens eram protagonistas, tanto na voz quanto nas letras, e assim que pude começar a construir meu próprio gosto musical eu vi o quanto as mulheres têm uma voz tão poderosa quanto a dos homens falando sobre traição, sexo, festas, bebida e qualquer outra coisa.
O rap, assim como o funk, tem uma linguagem muito das ruas, algo marginal, às vezes sofrido, às vezes de superação, mas sempre trazendo experiências de vida e histórias que muitas vezes conectam e dão essa sensação de proximidade.
As pessoas à frente desse cenário musical sempre foram quase predominantemente homens, e de uns anos pra cá vimos a ascensão das mulheres, como a própria Nanda Tsunami, a Duquesa, Ebony, Ajuliacosta, assim como antigamente, há muito tempo, já tínhamos vozes fortes como Sharylaine e Dina Di, ou a Flora Matos, que também passeia nesse ambiente.
O que me chamou atenção observando de longe, nessa posição de mulher consumidora de rappers que pisam em homens, é justamente o peso que isso acarreta: causou um certo incômodo no público masculino. Algo que me deixa curiosa, porque durante décadas o público consome e está acostumado a consumir músicas que falam sobre trair, sobre términos, sobre sexo sem permissão, sobre dopar mulheres, objetificando e até mesmo humilhando. E eu não vejo que isso tenha sido contestado de uma forma que ganhasse atenção, então, de repente, quando é a nossa vez, incomodou? Curioso.
Como a Nanda diz:
“Às vezes eu só taco o foda-se, ajo igualzinho os caras.”
Isso me faz questionar se não tem a ver com o fato de termos passado tanto tempo sendo silenciadas e somente acenando com a cabeça, que agora que estamos todas juntas fazendo barulho — o mesmo barulho que eles fazem —, está ensurdecedor.
Em 2023 teve o lançamento do filme live action Barbie. Sempre que lembro do movimento que foi esse filme meu coração fica quentinho e sei que o mundo ainda tem esperança, nós mulheres temos esperança. Eu amo saber que as pessoas abraçaram toda a grandiosidade que foi o lançamento desse filme: de você usar rosa e ir ao cinema, de poder ir com as amigas, com a mãe, com as irmãs, com os irmãos, com a avó, com quem você quisesse. Ele foi um verdadeiro presente para todas as mulheres que sentaram naquele cinema e voltaram a ter 5, 6, 7 anos de novo, quando brincavam de Barbie, ou então tudo que queriam era ter uma Barbie.
O filme carrega uma mensagem importante que é muito bem representada juntando ficção, mundo real, patriarcado, a luta feminina, bonecas, amizade e muito mais. Você começa rindo e termina chorando, não de tristeza, mas de felicidade, nostalgia ou qualquer coisa que envolva esse sentimento de saudade e principalmente coragem, porque eu acho que nós mulheres somos o tempo todo testadas, precisamos vestir coragem todos os dias antes de sair de casa, às vezes até dentro de casa.
Na época o filme recebeu muitas avaliações ruins indagando que de certa forma servia apenas para “humilhar, difamar e fazer chacota” dos homens. Isso meio que comprovou para mim como, dentro de alguns homens — e pessoas no geral, porque infelizmente eu sempre topo com mulheres que não apoiam umas às outras, e eu acho isso ainda pior —, o sentimento de ver uma mulher no topo, ou de ter o ego ferido, é insuportável.
Lembro que isso foi um tópico dentro do meu relacionamento e eu fiquei extremamente incomodada com a discussão, pois me sentia colocada à prova a todo instante. Eu precisava sempre defender o que eu acreditava, porque carregar o broche do feminismo assusta demais, parece que eu preciso sempre explicar por que eu acredito, por que eu apoio, por que eu sou assim.
Eu sinto que o termo “feminismo” foi perdendo significado e virou sinônimo de vergonha. Há pelo menos uns 10 anos eu sempre levantei a bandeira de que era feminista, e ainda me considero, sim, mas hoje, em 2026, em meio a guerras políticas, econômicas, sociais, você se considerar feminista é radical, é feio, é mimimi.
feminismo
É um movimento social, político e filosófico que luta pela igualdade de gênero. O objetivo central é o fim da dominação masculina e a conquista de direitos, oportunidades e vivências humanas equânimes para homens e mulheres, combatendo o sexismo e o machismo.
Acho que pessoas que não entendem o motivo da luta feminina e dessa nossa necessidade de também ocupar espaços que nos foram negados a vida inteira pensam assim porque talvez nunca precisaram recorrer a isso, ou nunca lhes foi conveniente. Até porque lutar para mudar uma sociedade que lhe favorece é difícil, né?
A grande verdade é que nenhum homem teria a capacidade de entender a verdadeira mensagem do filme Barbie e o peso emocional que ele tem em cada uma de nós: o de ser uma mulher no séc. XXI.
Hoje não vai ter referência escrita, pois eu jamais conseguiria transmitir através de teclas e letras o impacto que esse monólogo teve em mim, e sei que em cada uma das mulheres que o ouviram. Essa cena de Barbie sempre me emociona porque ela é muito pura e crua.
Eu não acredito que estamos nesse mundo apenas para sermos namoradas, esposas, mães ou amigas — estamos nesse mundo para sermos revolucionárias, para cantar rap e dizer:
“Ele quer me mostrar valor, bota ele pra trampar na esquina
E ele diz que eu sou linda
De peça na cinta, eu fico linda e segura
Eu sou calma, não boazinha, por favor, não se confunda.”
Que loucura, né? Ter que andar armada para se sentir segura. Num ônibus, num carro, num show, andando na rua a céu aberto às 12h de uma quarta-feira qualquer, ou até em uma calourada dentro da sua universidade.
Eu já tive mais ou menos uns 3 canivetes durante a minha vida. Meu padrasto sempre dizia: “fique segura”.
Eu e minha mãe uma vez quase fomos sequestradas por um motorista de aplicativo.
Realmente a luta feminina não vale de nada, né?
Eu não quero viver num mundo onde eu preciso o tempo inteiro ficar na defensiva, com medo de não ser boa o suficiente por ser mulher. Não quero ter medo de “machucar” um homem se eu já vivo o tempo inteiro com medo de ser machucada por um. É assustador como sempre precisamos nos provar em quase tudo que fazemos, e quando finalmente podemos ser livres e dizer tudo o que pensamos, somos mortas, silenciadas, censuradas.
E ser assim não é fácil: aprender a dizer não, aprender a colocar limites, ser vista como chata, reclamona, porque fomos ensinadas a não gritar, a aceitar, a deixar os homens pensarem por nós, a pensarmos como homens.
No fim, o bom é que enquanto houver mulheres falando em quebrar e devolver, eu repito: jamais estaremos sozinhas. Temos umas às outras, e quem mais quiser se juntar a nós. Isso não é sobre ser maior ou melhor, é sobre conquistar um espaço que sempre foi NOSSO.
É sobre isso, amigas.
Laura Cruz.

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